Em entrevista à agência Lusa, Mário Dinis Ribeiro, que participa na quarta-feira no painel "Novos Rastreios de Base Populacional", com notas sobre o rastreio do cancro gástrico, num evento organizado pela Direção-Geral da Saúde(DGS), afirmou que "há evidência suficiente, pelo menos no Norte de Portugal, para sugerir o rastreio do cancro gástrico por endoscopia na altura em que a pessoa faz a colonoscopia para o rastreio do cancro colorrectal".
Esta convicção resulta de um projeto-piloto de âmbito europeu que Mário Dinis Ribeiro está a desenvolver em Portugal, no Instituto Português de Oncologia(IPO) do Porto, bem como de estudos de custo-benefício e teses de doutoramento nesta área.
"O meu último slide é precisamente para dizer que há evidência de que os cidadãos, quando lhes é perguntado se querem participar, participam. Há provas de que, se uma lesão for identificada numa fase inicial, pode ser tratada, o que é uma condição para o rastreio. E há projectos-piloto que demonstram que é exequível", disse à Lusa.
O especialista defendeu, por isso, que a recomendação de introduzir a endoscopia no âmbito do rastreio deve ser "imediatamente associada".
Além de Portugal, participam neste projeto-piloto instituições e especialistas da Lituânia, França, Holanda, Irlanda, Alemanha, Letónia e Espanha.
No total, 1600 pessoas, 209 das quais do Norte de Portugal, responderam ao desafio dos especialistas.
Iniciado em 2024, o projeto deverá ter resultados sistematizados dentro de seis meses.
Mas uma coisa é já certa: a resposta à pergunta "e se aproveitássemos a oportunidade de fazer uma endoscopia quando vimos fazer uma colonoscopia?" é positiva. Portanto, na prática, a resposta a 'e se aproveitássemos o rastreio do cancro do cólon para rastrear o cancro do estômago?' é positiva", descreve o vice-diretor do Centro de Investigação do IPO Porto e professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.
Considerando que assim se poupam recursos humanos, bem como tempo a quem está a ser rastreado, Mário Dinis Ribeiro, que é co-coordenador da mais recente iniciativa europeia e da Organização Mundial de Saúde relativa ao cancro gástrico, admite que serão necessários mais recursos tecnológicos, mas garante que "está provado que faz sentido".
"Mesmo sem qualquer decisão política, a comunidade já o está a fazer [adotar os dois exames]. Para além de identificarmos potenciais lesões no estômago, identificamos indivíduos que estão em risco ou que podem vir a ter maior risco de desenvolver cancro no futuro. A realização da endoscopia permite identificar indivíduos que vão precisar de acompanhamento e prevenção", argumentou.
Segundo dados de um estudo publicado no ano passado no European Journal of Gastroenterology & Hepatology, no qual Mário Dinis Ribeiro também participou, Portugal tem uma incidência intermédia de cancro gástrico em relação a outros países, com 11 casos por 100 mil habitantes.
No entanto, com base na incidência bruta (não ajustada à idade), o país tem uma taxa muito superior (26/100.000), o que classificaria Portugal como tendo uma incidência elevada.
"Em Portugal, neste domínio, é urgente tomar decisões. A minha opinião pessoal é que temos dados suficientes para começar a sugerir o rastreio do cancro gástrico por endoscopia na altura em que uma pessoa faz uma colonoscopia", concluiu.
Com início às 9h00, o evento comemorativo do Dia Mundial do Cancro, organizado pela Direção-Geral da Saúde (DGS), através do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas (PNDO), vai reunir em Lisboa especialistas, profissionais de saúde e representantes de instituições nacionais, sob o tema "Rede Oncológica: Uma Estratégia Nacional".
De acordo com o resumo publicado no site da DGS, a iniciativa pretende promover o diálogo sobre a situação epidemiológica do cancro em Portugal, os novos programas de rastreio de base populacional e os desafios da oncologia pediátrica, destacando o papel do Serviço Nacional de Saúde(SNS) na prestação de cuidados clínicos aos doentes oncológicos.







