O crescimento da produção eólica, hidroelétrica e solar permitiu reduzir a dependência dos combustíveis fósseis na produção de eletricidade e desenvolver competências relevantes num setor estratégico para o futuro da economia. Mas, à medida que a transição energética avança, considero que chegou o momento de colocar uma questão diferente: estamos a aproveitar suficientemente esta transformação para desenvolver uma economia mais industrializada, produtiva e competitiva? Produzir eletricidade renovável é importante, mas transformar essa capacidade em investimento industrial, inovação e criação de riqueza poderá ser ainda mais determinante para o futuro de Portugal.

Durante muitos anos, a política energética concentrou-se sobretudo na diversificação das fontes de produção, na segurança do abastecimento e na redução das emissões. Esses objetivos continuam a ser fundamentais, mas o contexto económico internacional está a mudar. A energia voltou a assumir um papel central nas decisões de investimento industrial, particularmente numa Europa que procura reforçar a sua autonomia económica e recuperar competitividade face a outras regiões do mundo. Para muitas empresas, o acesso a eletricidade em condições competitivas, previsíveis e seguras tornou-se um fator tão relevante como as infraestruturas, a disponibilidade de trabalhadores ou a proximidade dos mercados. Portugal possui recursos naturais favoráveis, mas essa vantagem só terá verdadeiro impacto se conseguir responder às necessidades concretas das empresas.

Existe também uma diferença importante entre atrair investimento para instalar infraestruturas energéticas e desenvolver uma cadeia industrial associada a esse investimento. Os parques solares, os projetos eólicos e as novas soluções de armazenamento mobilizam capitais significativos, mas muitos dos equipamentos utilizados são produzidos fora do país. Não seria realista defender que Portugal deveria fabricar todos esses componentes. Contudo, temos empresas e instituições de investigação com competências em engenharia, eletrónica, software, automação e serviços tecnológicos que poderiam participar de forma mais ativa nesta transformação. A oportunidade não está apenas em instalar tecnologia, mas também em desenvolver soluções próprias, criar empresas especializadas e aumentar as exportações de produtos e serviços de maior valor acrescentado.

Esta estratégia exige igualmente uma nova forma de olhar para as nossas áreas empresariais e para o desenvolvimento regional. Os parques industriais do futuro não poderão ser avaliados apenas pela disponibilidade de terrenos, acessos rodoviários e telecomunicações. A capacidade de ligação à rede elétrica, as possibilidades de autoconsumo, a eficiência energética e a previsibilidade dos custos serão fatores cada vez mais importantes para atrair investimento. Também o interior português, onde se localizam numerosos projetos renováveis, deveria conseguir beneficiar de uma maior integração entre produção energética, atividade industrial e serviços especializados. Mas essa transformação não acontece automaticamente. Exige planeamento, formação profissional, infraestruturas e uma articulação efetiva entre empresas, municípios e instituições de ensino.

Portugal precisa, por isso, de aproximar a sua política energética da estratégia industrial. Não basta anunciar novos investimentos em capacidade de produção renovável se continuarmos a enfrentar dificuldades nas ligações às redes, nos processos de licenciamento ou na criação de condições para instalar novas unidades produtivas. Também não basta medir o sucesso da transição energética pelos megawatts instalados ou pela percentagem de eletricidade renovável consumida. Devemos começar a avaliar quantas empresas conseguem tornar-se mais competitivas, quantos investimentos industriais são atraídos, que tecnologias desenvolvemos e quanto valor económico permanece efetivamente no país.

A transição energética representa uma oportunidade que Portugal não deveria limitar à produção de eletricidade. Pode ajudar a modernizar a indústria, reforçar as exportações, atrair investimento e criar novas oportunidades económicas em diferentes regiões. Mas isso exige uma visão integrada, capaz de transformar os nossos recursos naturais numa vantagem produtiva duradoura. Durante anos, investimos para mudar a forma como produzimos energia. Agora precisamos de dar o passo seguinte e utilizar essa energia para transformar aquilo que a nossa economia consegue produzir.

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