Lisboa, Cascais e Algarve concentravam grande parte das atenções e, mais recentemente, Comporta entrou definitivamente nesta geografia. Mas os números que tenho vindo a acompanhar sugerem que talvez estejamos a olhar para um mapa que já começou a ficar desatualizado.
O mercado premium português continua a crescer, mas aquilo que considero mais interessante não é apenas a valorização dos preços. É perceber onde ela está a acontecer. Funchal, Calheta, Vila Nova de Gaia, Grândola, Almada e outras localizações começam a ganhar uma relevância que mostra como a procura se está progressivamente a distribuir pelo território. Existem valorizações anuais muito expressivas, superiores a 14% em mercados como Funchal, Albufeira e Vila Nova de Gaia, enquanto Grândola registou uma subida superior a 27%. Mais do que os números isolados, interessa perceber o movimento que revelam.
Seria fácil explicar esta evolução apenas através dos preços de Lisboa ou das zonas mais consolidadas do Algarve. Quem já não consegue, ou simplesmente não quer, pagar determinados valores procura alternativas. Mas penso que existe algo mais profundo a acontecer. O próprio conceito de imobiliário premium está a mudar. Privacidade, sustentabilidade, eficiência energética, tecnologia, natureza e qualidade de vida ganharam peso na decisão. Ao mesmo tempo, diferentes regiões portuguesas começaram a oferecer propostas muito distintas ao mesmo mercado internacional. O Algarve oferece clima e proximidade ao mar. A Comporta combina natureza, baixa densidade e exclusividade. O Porto acrescenta património, identidade urbana e cultura. A Madeira oferece clima, paisagem e uma qualidade de vida muito própria.
Isto significa que Portugal pode estar a deixar de ter apenas alguns destinos imobiliários internacionais para passar a possuir vários mercados com identidades próprias. E considero esta mudança particularmente importante. Não precisamos de criar uma nova Lisboa em cada região, nem transformar todos os territórios numa nova Comporta. Pelo contrário, parte do valor está precisamente na diferença e na capacidade de cada região preservar aquilo que a torna atrativa.
Mas esta transformação coloca também responsabilidades aos municípios e aos decisores locais. Quando o investimento internacional começa a descobrir novos territórios, não basta assistir à valorização dos imóveis. É necessário pensar em infraestruturas, mobilidade, serviços, ordenamento, oferta habitacional e capacidade para transformar essa procura em desenvolvimento económico local. Caso contrário, podemos ficar apenas com preços mais elevados sem capturar todo o valor que o investimento poderia gerar.
Lisboa continua, entretanto, competitiva quando comparada com outros grandes mercados internacionais. Os valores do segmento prime permanecem significativamente abaixo de cidades como Paris, Londres ou Nova Iorque. Mas talvez a história mais interessante do imobiliário português já não esteja apenas na capital ou nos destinos que tradicionalmente concentraram a procura estrangeira.
O próximo ciclo pode ser precisamente o alargamento desta procura a diferentes geografias, cada uma com a sua identidade e proposta de valor. Isso pode representar uma enorme oportunidade para Portugal, desde que saibamos gerir o crescimento sem destruir precisamente aquilo que tornou esses lugares atrativos.
Talvez devamos, por isso, deixar de procurar a próxima Lisboa ou o próximo Algarve. O verdadeiro novo mapa do imobiliário português pode ser um país com vários destinos internacionais, diferentes entre si, mas capazes de competir no mesmo mercado global.









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