Esta preocupação esteve presente no Congresso Nacional da AHRESP, realizado no Algarve, e considero que merece uma reflexão que ultrapassa largamente as fronteiras do turismo. Enquanto vice-presidente da APEMIP, tenho acompanhado os desafios do mercado habitacional português e estou cada vez mais convencido de que a falta de habitação acessível se tornou também um problema de competitividade económica.

Durante muitos anos, habituámo-nos a discutir a habitação sobretudo como uma questão social. E é, naturalmente, uma das mais importantes. Mas precisamos de reconhecer que a dificuldade de encontrar uma casa a preços compatíveis com os rendimentos tem consequências diretas na capacidade das empresas para contratar, na mobilidade dos trabalhadores e no desenvolvimento das regiões.

O Algarve representa um exemplo particularmente evidente. A região dispõe de uma atividade turística internacionalmente reconhecida, com empresas que procuram melhorar os seus serviços e oferecer experiências de qualidade. Contudo, muitas dessas empresas enfrentam dificuldades para atrair e manter profissionais, sobretudo quando os custos da habitação tornam economicamente inviável aceitar uma oportunidade de emprego.

Não basta criar postos de trabalho se não existirem condições para que as pessoas possam viver perto deles.

Durante o congresso, foi colocada uma questão que considero especialmente relevante: quando se planeia uma nova unidade hoteleira, não deveria também existir uma preocupação com a habitação necessária para os trabalhadores que essa unidade irá empregar?

Esta reflexão aponta para uma mudança importante na forma como pensamos o desenvolvimento económico. O investimento turístico, o planeamento urbano e a política de habitação não podem continuar a funcionar como realidades independentes.

Precisamos de aumentar a oferta habitacional, simplificar os processos de licenciamento e criar condições para que o investimento privado possa contribuir para responder às necessidades das populações. Ao mesmo tempo, é fundamental que as autarquias disponham de instrumentos de planeamento capazes de antecipar o crescimento da atividade económica e as respetivas necessidades habitacionais.

O problema também não se resolve apenas com alojamentos temporários para trabalhadores sazonais. Uma região que pretende reduzir a sazonalidade, melhorar a qualidade do emprego e fixar talento precisa de oferecer perspetivas de estabilidade às famílias.

Credits: Supplied Image; Author: Paulo Lopes;

Esta realidade coloca igualmente desafios à produtividade nacional. Quando um trabalhador não consegue mudar de região para aceitar uma oportunidade profissional melhor remunerada, toda a economia perde capacidade de adaptação. A habitação deixa, assim, de ser apenas uma necessidade individual e transforma-se num fator determinante para o funcionamento do mercado de trabalho.

O turismo português precisa de profissionais qualificados, motivados e disponíveis para construir carreiras no setor. Mas essa ambição exige condições concretas para viver, constituir família e desenvolver um projeto de vida.

Se queremos continuar a construir hotéis, restaurantes e experiências turísticas de excelência, precisamos também de construir as casas que tornam possível o funcionamento dessas atividades.

Porque não haverá turismo verdadeiramente sustentável enquanto aqueles que recebem os visitantes não conseguirem encontrar um lugar onde viver.

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