Para ser sincero, no auge da televisão, os melhores programas eram eventos a que nós realmente assistíamos. Ruas inteiras ficavam em silêncio, os bares esvaziavam-se mais cedo e as crianças eram mandadas para a cama com precisão militar, porque os adultos estavam a ver algo «importante», como a estreia televisiva de um filme do James Bond. Naquela altura, as famílias organizavam as suas noites em função da televisão, em vez de esperarem que fosse a televisão a adaptar-se a elas.
Gigantes pré-históricos
Eu sei, isto soa um pouco pré-histórico hoje em dia. É um pouco como descrever um mundo onde os neandertais ordenhavam mamutes. Mas, durante cerca de 40 anos, desde o final da década de 1960 até ao início dos anos 2000, a televisão dominava os lares. Naquela época, não havia quinhentos canais, trinta e sete plataformas de streaming e um algoritmo a insistir que irias gostar bastante de uma série coreana sobre a criação de lulas.
No Reino Unido, tínhamos gigantes. A BBC, a ITV e, mais tarde, o Channel 4 não eram simplesmente emissoras; eram instituições. Produziam programas que faziam parte da cultura quotidiana. Ver séries de comédia tornou-se um ritual familiar; documentários sobre a natureza, como «Life on Earth», de David Attenborough, tornaram-se eventos marcantes. As noites de sábado pertenciam ao brilho, aos programas de jogos e ao entretenimento que agradava simultaneamente a avós, pais e filhos.
Do outro lado do Atlântico, a América não era diferente. As grandes redes produziam programas que atraíam audiências com as quais as emissoras de hoje só podem sonhar. Milhões de pessoas assistiam ao mesmo programa na mesma noite; não havia botão de pausa, nem reposições, nem maratonas de séries. Se perdesse, tinha de esperar pela repetição. A escassez tornava a televisão valiosa.

Evolução
Por isso, não creio que as audiências televisivas tenham simplesmente desaparecido; fragmentaram-se. Em vez de ter vinte milhões de pessoas a ver um programa, dois milhões viam a BBC1, outro milhão via outra coisa e vários milhões mais ficavam a ver gatos a tocar piano no YouTube.
A economia também mudou. Antigamente, as emissoras podiam gastar fortunas em produções espetaculares porque as enormes audiências garantiam receitas publicitárias ou justificavam a cobrança da taxa de licença. Hoje, como vimos, as audiências estão espalhadas por várias plataformas. A publicidade segue os espectadores e o dinheiro segue a publicidade.
A mudança cultural
Há também outro problema. Os executivos da televisão moderna sentem-se frequentemente assustados. Têm medo de ofender, medo de correr riscos e ainda mais medo de encomendar algo excêntrico que possa falhar espetacularmente. Ironicamente, muitos dos clássicos de outrora só existem porque alguém, em tempos, arriscou de facto uma aposta ridícula. Programas como «Fawlty Towers», por exemplo. É certo que, hoje em dia, algumas dessas séries seriam consideradas um pouco tabu. Quer dizer, como é que o John Cleese e a Connie Booth se atreveram a estereotipar as boas pessoas de Barcelona ao criarem a hilariante personagem do Manuel? Quanto a «não mencionar a guerra»? Essa pequena piada é suficiente para irritar demasiados alemães nos dias de hoje.

Entretanto, os maiores momentos culturais acontecem cada vez mais online. Um documentário no YouTube, uma entrevista num podcast ou algumas transmissões ao vivo anónimas. Basta um criador independente com uma câmara e uma opinião para atrair mais espectadores do que qualquer produção televisiva dispendiosa consegue no mundo de hoje. Isso é extraordinário, mas também um pouco assustador, especialmente se por acaso estiveres a gerir uma empresa de radiodifusão com milhares de funcionários e reuniões de gestão suficientes para aborrecer qualquer pessoa sensata até à morte.
Tecnologia
O futuro provavelmente pertence às emissoras que compreendem que já não são canais de televisão. São empresas de conteúdos. Hoje em dia, as pessoas não se importam realmente se veem conteúdos na televisão, num portátil, num tablet ou num smartphone. Querem simplesmente histórias cativantes.
No entanto, a tecnologia em si não é o que importa, mas sim uma boa narrativa. Sempre foi assim. Porque, apesar de todas as previsões, os seres humanos continuam a adorar rir juntos, chorar juntos e discutir o que viram na noite anterior. A diferença é que «na noite anterior» pode agora envolver vinte milhões de pessoas a ver vinte milhões de coisas diferentes.
Talvez isso seja progresso, ou talvez seja fragmentação.
Aconteça o que acontecer, a era em que todos viam o mesmo programa ao mesmo tempo já passou. Mas a televisão, por si só, não morreu; foi simplesmente relegada a um segundo plano. Outrora ocupava orgulhosamente a vanguarda do mundo do entretenimento, mas agora luta pela atenção do público com telemóveis, tablets, consolas de jogos, podcasts e redes sociais. Não acho que isso seja um fracasso. É apenas evolução.
Uma nota final
Para aqueles de nós que se lembram de correr para casa para apanhar os créditos iniciais do nosso programa favorito, ou de discutir no escritório sobre o episódio de ontem à noite de «Dallas», tudo isto desperta uma certa nostalgia. Não apenas pelos programas, mas pela magia peculiar de saber que, durante cerca de uma hora, uma nação inteira estava a ver exatamente a mesma coisa. No mundo infinitamente personalizado de hoje, isso pode vir a revelar-se o maior presente da televisão.







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