Li recentemente no Jornal de Negócios uma conversa com Burkhard Varnholt, consultor sénior de mercados financeiros do UBS Global Wealth, na qual afirma que Portugal é atualmente a economia mais bem sucedida da Europa e que deverá continuar a superar a média no próximo ano. Mais do que o elogio, interessa perceber as razões que levam um observador internacional dos mercados a olhar desta forma para a economia portuguesa.
Varnholt fala de um círculo virtuoso. Destaca o crescimento do investimento nacional e estrangeiro, o turismo, a evolução do imobiliário e do mercado acionista, as reformas estruturais, os excedentes orçamentais e a redução da dívida pública. Recorda ainda que a bolsa portuguesa valorizou cerca de 20% nos últimos doze meses, apesar da reduzida dimensão do nosso mercado de capitais. A sua conclusão é particularmente forte: não identifica, neste momento, razões para acreditar que esta dinâmica seja passageira.
Naturalmente, Portugal continua a ter problemas estruturais importantes. A produtividade permanece baixa, a habitação tornou se inacessível para muitas famílias, os salários continuam distantes de outras economias europeias e persistem enormes dificuldades na burocracia, no licenciamento e na capacidade de execução do Estado. Reconhecer aquilo que está a correr bem não significa ignorar aquilo que continua por resolver. Pelo contrário, talvez nos permita perceber melhor a oportunidade que temos diante de nós.
Tenho escrito frequentemente sobre investimento, energia, imobiliário, tecnologia, data centers, cabos submarinos e sobre a posição geográfica privilegiada de Portugal. Em muitos contactos internacionais encontro hoje uma curiosidade e uma confiança no nosso país que, curiosamente, nem sempre encontro dentro de Portugal. Talvez devêssemos prestar mais atenção a este contraste.
Há ainda outra dimensão interessante na entrevista. Varnholt considera que o mundo pode aprender com Portugal. Um país que atravessou uma grave crise financeira foi obrigado a reformar se e emerge agora numa posição mais sólida, enquanto algumas das maiores economias europeias enfrentam dificuldades em realizar reformas que durante anos puderam adiar.
Infelizmente, estas são precisamente as notícias económicas que muitas vezes passam quase despercebidas. O debate público português continua demasiado concentrado nos mesmos assuntos, nas mesmas polémicas e, inevitavelmente, no futebol. É legítimo que assim seja, mas uma sociedade também precisa de conhecer aquilo que está a mudar estruturalmente a sua economia.
Portugal não se tornou subitamente um país sem problemas. Mas talvez esteja a tornar se um país com muito mais oportunidades do que nós próprios reconhecemos. Se investidores, empresários e analistas internacionais começam a olhar para Portugal de outra forma, seria útil que começássemos também a olhar para nós próprios com maior ambição. Não para celebrarmos antecipadamente o sucesso, mas para não desperdiçarmos uma oportunidade que outros já começaram a identificar.






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