Estávamos na Europa, tínhamos acesso ao Atlântico, custos relativamente baixos, estabilidade e proximidade aos grandes mercados europeus. Essa combinação ajudou a atrair indústria, turismo, serviços e investimento estrangeiro. Continua a ser importante, mas começa a ser insuficiente para explicar alguns dos investimentos que estão a chegar ao país.

Quando encontramos em Portugal projetos relacionados com cloud, centros de dados, tecnologia espacial, componentes aeronáuticos, inteligência artificial, engenharia, energias renováveis ou indústria avançada, já não estamos apenas perante empresas que escolheram uma localização conveniente. Estamos perante atividades que precisam de engenheiros, programadores, investigadores, técnicos especializados, universidades e empresas capazes de integrar cadeias de valor internacionais cada vez mais complexas.

É uma mudança importante na forma como devemos olhar para a competitividade portuguesa. Um país pode oferecer terrenos, incentivos e boas infraestruturas, mas dificilmente consegue construir uma economia de elevado valor acrescentado se não tiver conhecimento. Na economia que está a emergir, uma universidade de qualidade pode ser tão importante para uma decisão de investimento como uma autoestrada, e a disponibilidade de engenheiros pode pesar tanto como o preço de um terreno industrial.

Portugal começa a possuir alguns dos elementos necessários para competir desta forma. Temos universidades e centros de investigação reconhecidos, engenheiros e profissionais tecnológicos integrados em projetos internacionais e empresas portuguesas que já exportam software, tecnologia industrial, engenharia e conhecimento. Temos também uma geração de empreendedores que olha para o mercado global desde o primeiro dia. O desafio está em transformar estes casos numa característica estrutural da economia, em vez de continuarem a ser apresentados como exceções.

Isso implica aproximar muito mais universidades e empresas, transformar investigação em produtos comercializáveis, facilitar o crescimento das empresas tecnológicas e criar condições para que o talento encontre em Portugal projetos suficientemente interessantes e bem remunerados para aqui construir a sua carreira. Significa também compreender que atrair uma multinacional é apenas o princípio. O verdadeiro benefício surge quando essa empresa compra a fornecedores portugueses, trabalha com universidades nacionais, forma profissionais, desenvolve investigação e ajuda a criar novas empresas à sua volta.

Durante muito tempo perguntámos como poderíamos tornar Portugal mais barato ou mais atrativo para quem procurava uma localização. Talvez a pergunta esteja a mudar. Num mundo onde tecnologia, energia, segurança e talento pesam cada vez mais nas decisões de investimento, Portugal tem a possibilidade de competir por algo muito mais valioso.

Não precisamos de deixar de aproveitar a nossa localização. Precisamos de acrescentar-lhe conhecimento.

Porque a localização pode trazer um investimento para Portugal. O conhecimento é aquilo que pode fazer com que esse investimento transforme Portugal.