Portugal tinha, e continua a ter, uma oportunidade extraordinária para além do litoral. Espaço, natureza, património rural, qualidade de vida e uma tradição agrícola que fomos progressivamente deixando para trás. Durante demasiado tempo concentrámos a discussão imobiliária em Lisboa, Porto e Algarve, como se o restante território tivesse pouco para oferecer ao mercado internacional. Sempre considerei essa visão demasiado limitada.

Hoje começamos a perceber que muitos compradores não procuram apenas uma casa. Procuram espaço para viver, privacidade, contacto com a natureza, a possibilidade de cultivar uma pequena propriedade ou até desenvolver um projeto agrícola. E isto é particularmente interessante porque representa uma mudança na forma como olhamos para o valor de um imóvel.

Uma quinta já não é necessariamente vista como uma propriedade antiga, afastada dos grandes centros e com elevados custos de manutenção. Pode representar um projeto de vida, um investimento de longo prazo ou a oportunidade de recuperar uma atividade económica ligada à terra.

Naturalmente, nem todos os compradores pretendem tornar-se agricultores. Mas mesmo a recuperação de pequenas propriedades, pomares, olivais ou terrenos abandonados pode contribuir para devolver atividade a territórios que perderam população e investimento durante décadas. E quando existe uma verdadeira ambição agrícola, a oportunidade é ainda maior.

Também o perfil dos emigrantes está a mudar. A antiga casa construída na aldeia de origem, muitas vezes destinada à reforma ou às férias familiares, começa a dar lugar a decisões mais racionais. Localização, acessos, eficiência energética, proximidade de serviços e qualidade da propriedade pesam hoje mais do que a simples ligação emocional à terra. E os filhos dos emigrantes nem sempre pretendem regressar ao lugar de onde partiram os pais.

Esta transformação pode abrir oportunidades para recuperar património que, de outra forma, permaneceria vazio ou acabaria por se degradar. Mas também mostra que o interior precisa de muito mais do que preços imobiliários competitivos.

Precisa de bons acessos, saúde, telecomunicações, serviços, capacidade de reabilitação e condições para desenvolver atividade económica. Uma quinta pode ser extraordinária, mas dificilmente atrairá residentes permanentes se o território à sua volta não funcionar.

Há ainda uma questão que considero fundamental. Não devemos transformar o interior numa simples extensão do mercado de segundas habitações do litoral. O verdadeiro potencial está em conseguir associar a recuperação imobiliária à revitalização das aldeias, à agricultura, aos produtos locais, ao turismo de natureza e à criação de pequenas empresas.

Portugal possui algo que muitos países europeus dificilmente conseguem oferecer na mesma proporção: território, diversidade de paisagens, clima e a possibilidade de viver com espaço e qualidade. Não precisamos de concentrar toda a nossa ambição económica e imobiliária numa estreita faixa junto ao mar.

É por isso que estas notícias me deixam particularmente satisfeito. Não por ter escrito sobre o assunto há mais de oito anos, mas porque começam finalmente a dar visibilidade a uma oportunidade que sempre esteve diante de nós.

O interior português não precisa de ser descoberto. Precisa de ser valorizado, habitado e economicamente reativado.

Talvez esteja na altura de percebermos que o futuro de Portugal não se constrói apenas onde termina a terra e começa o mar. Constrói-se também nas quintas, nas aldeias e nos campos que durante demasiado tempo deixámos para trás.

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