O turismo teve um papel importante nessa transformação. Trouxe investimento, restaurou edifícios, criou empresas e empregos e colocou Portugal entre os destinos mais procurados
da Europa.Portanto, seria muito simples culpar o turismo pela crise imobiliária. O problema português é mais profundo. A Morningstar DBRS estima que, desde 2014, se acumulou um déficit de mais de 300.000 casas, resultado de anos de construção insuficiente, altos custos, falta de mão de obra e dificuldades nos processos de licenciamento
.Mas reconhecer isso não significa ignorar a realidade: quando há pouca oferta, qualquer aumento adicional na demanda cria pressão. O crescimento do turismo e das estadias de curta duração tornou-se outro fator em um mercado imobiliário já desequilibrado
.Talvez seja por isso que tenha chegado a hora de parar de discutir turismo e moradia como se fossem dois problemas independentes. Portugal precisa de ambos.
Precisa continuar a ser um destino turístico competitivo, porque o turismo representa investimento, exportação, emprego e atividade econômica. Mas também precisa garantir que aqueles que trabalham em nossas cidades possam morar nelas e que as famílias encontrem moradia compatível com sua renda. A questão central é, portanto, o planejamento.
Quando uma cidade decide como quer crescer, ela deve ser capaz de antecipar quantas casas serão necessárias, onde faz sentido aumentar a oferta turística, quais edifícios estão vagos, quais podem ser recuperados ou convertidos, onde novos projetos devem surgir e qual infraestrutura será necessária para acompanhar esse crescimento.
A própria OCDE aponta nessa direção ao defender uma política de turismo mais integrada ao desenvolvimento regional, capaz de gerenciar melhor os fluxos de visitantes, distribuir os benefícios do turismo por todo o território e considerar também as necessidades das comunidades locais.
Isso também significa olhar de forma diferente para o investimento em turismo. Um hotel pode restaurar o patrimônio abandonado. Um projeto de turismo pode regenerar uma área degradada. Novos destinos podem criar atividade econômica em territórios que estão perdendo população. E em regiões onde se tornou difícil encontrar trabalhadores devido ao custo da moradia, talvez os próprios projetos de turismo precisem começar a considerar soluções habitacionais para aqueles que trabalham neles.
O futuro não deve, portanto, ser uma escolha entre turistas e residentes, hotéis e casas ou investimento e qualidade de vida. Deve ser uma questão de equilíbrio e, acima de tudo, de antecipação.
Portugal já conhece a importância econômica do turismo. Também conhece a dimensão do problema habitacional. O que falta agora é reunir essas duas realidades em uma estratégia territorial capaz de decidir onde queremos turismo, onde precisamos de moradia e como ambos podem coexistir. Porque o próximo capítulo do turismo português não deve ser apenas sobre quantos turistas podemos receber.
Deve ser sobre qual país queremos construir com o turismo que temos.







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