Os preços aumentaram, as rendas subiram, comprar tornou se mais difícil e construir continua a ser caro e demorado. Cada notícia retrata uma parte do problema e quase sempre gera uma nova discussão sobre uma medida específica. Mas talvez seja precisamente essa forma fragmentada de olhar para a habitação que nos esteja a impedir de compreender a verdadeira dimensão do desafio.

Dois números recentemente publicados ajudam a perceber o problema. Entre 2021 e 2025, Portugal acumulou um défice de oferta equivalente a cerca de 300 mil habitações, resultado da diferença entre a formação de novos agregados familiares e a capacidade de colocar novas casas no mercado. Ao mesmo tempo, uma análise do Idealista estima que, no segundo trimestre deste ano, o esforço necessário para arrendar uma casa correspondia a 82% do rendimento familiar e para comprar atingia 76%. Podemos discutir as metodologias, mas é difícil ignorar aquilo que estes indicadores, vistos em conjunto, nos dizem: existe um profundo desequilíbrio entre aquilo que o país precisa, aquilo que consegue produzir e aquilo que as famílias conseguem pagar.

O mais preocupante é que continuamos a procurar soluções isoladas para um problema estrutural. Incentivamos a compra para os jovens, alteramos impostos, discutimos limitações ao alojamento local, criamos benefícios para determinadas rendas e anunciamos programas públicos de construção. Algumas destas medidas podem ser úteis, mas nenhuma resolve isoladamente um problema acumulado durante muitos anos. Aliás, se a construção em 2025 já conseguiu acompanhar aproximadamente a criação de novos agregados familiares, isso é uma boa notícia, mas significa apenas que deixámos de aumentar o défice nesse ano. As centenas de milhares de casas que ficaram para trás continuam a faltar.

É por isso que Portugal precisa de olhar para a habitação como uma infraestrutura económica e social e não apenas como um conjunto de casas. Precisamos de construção para venda, mas também de um verdadeiro mercado profissional de arrendamento, habitação pública e acessível, residências para estudantes e seniores, recuperação de imóveis devolutos e mecanismos que permitam mobilizar capital privado de longo prazo. Precisamos igualmente de reduzir os tempos de licenciamento, aumentar a capacidade do setor da construção e perceber que Lisboa, Faro, Porto, Guarda ou Castelo Branco enfrentam realidades completamente diferentes. Uma política nacional não pode ignorar essas diferenças.

A habitação influencia muito mais do que o lugar onde vivemos. Condiciona a mobilidade dos trabalhadores, a capacidade das empresas recrutarem talento, a decisão dos jovens permanecerem no país, a formação de famílias e, em última análise, a competitividade da economia portuguesa. Quando uma família fica financeiramente presa a uma localização porque não consegue encontrar uma alternativa habitacional próxima de uma nova oportunidade profissional, o problema deixa de ser apenas imobiliário.

Talvez seja por isso que, antes de anunciarmos a próxima medida para a habitação, devêssemos definir primeiro onde queremos estar daqui a dez anos. Portugal não precisa de mais uma solução para uma parte do problema. Precisa finalmente de uma estratégia para o todo.