Volta, a iniciativa de reciclagem, foi implementada em 10 de abril no início deste ano. Com o novo sistema, cada garrafa de água ou lata contendo menos de três litros tem um custo adicional de dez centavos, que é reembolsado se o consumidor devolver o recipiente vazio intacto

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Mais de 300 milhões de pacotes já foram devolvidos pelo sistema Volta; no entanto, algumas autoridades já criticaram publicamente a iniciativa, informa a CNN Portugal.

O prefeito de Lisboa, Carlos Moedas, pediu o cancelamento imediato do sistema: “Não o queremos”, disse ele na Assembleia Municipal. “É uma boa intenção, mas é um resultado ruim”, disse Moedas.

â [Volta] está criando uma enorme pressão sobre a higiene urbana, algo que suja a cidade. As pessoas estão entrando nas lixeiras. Tenho imagens de pessoas entrando em lixeiras, dentro de pontos de reciclagem. É uma desgraça”, acrescentou Moedas.

Drama social

Em declarações à CNN Portugal, Nuno Jardim, diretor-geral do Centro de Apoio aos Sem-Abrigo (CASA), reconhece que o sistema criou algum drama social.

A CASA testemunhou casos de pessoas que estavam sendo monitoradas e apoiadas e estavam prestes a começar a trabalhar, que, como resultado do novo sistema, recusaram o emprego, argumentando que poderiam ganhar uma renda melhor e trabalhar menos coletando garrafas e trocando-as por dinheiro.

“Houve usuários que estavam sendo monitorados por outras instituições em conjunto, que eram usuários, estavam relativamente equilibrados e que, graças à Volta, tinham recursos financeiros, recaíram e acabaram se perdendo”, disse Nuno Jardim.

Jardim disse que, na experiência particular de Casa, ele se lembrava de dois desses casos e enfatizou que não estava sugerindo que o problema fosse generalizado.

Resultados financeiros concorrentes

Nuno Jardim disse que conhece casos de pessoas que ganharam 40 euros por dia usando o sistema Volta. “São muitas garrafas, mas elas conseguem”, ressalta, mas destaca que nem todo mundo alcança essa quantia todos os dias.

Para que alguém recebesse 40 euros através da Volta, precisaria coletar um total de 400 garrafas ou latas, informa a CNN Portugal. Uma renda diária de 40 euros corresponde a 880 euros por mês para alguém que coleta contêineres 22 dias por mês

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Num programa do IEFP, que permite às pessoas alavancar as suas competências para começarem a trabalhar, os participantes recebem o Índice de Apoio Social (IAS) de cerca de 537 euros, explica Nuno Jardim.

Em comparação, alguém que conseguir acumular esses 40 euros em garrafas e latas por dia precisará de apenas 13 dias para obter o equivalente a esse valor.

Dependência de drogas

No caso de pessoas que sofrem de dependência de drogas, o problema é ainda mais complexo, explica ele, porque “comprar uma dose de crack é extremamente barato”.

Ele argumenta que, desde o início do sistema, ficou cada vez mais fácil ter uma recaída. “Essas pessoas começaram a perceber que lá [em Volta], com menos trabalho, mais relaxadas e à vontade, elas podem ganhar alguma renda, em vez de poderem trabalhar, se esforçar para trabalhar ou se concentrar no tratamento em relação ao uso de substâncias.”

Segundo Nuno Jardim, esta é a principal consequência social negativa da Volta.

Além de Lisboa

Esse fenômeno não é exclusivo de Lisboa, de acordo com Jardim, que diz que a CASA também o está vendo no Porto, onde a organização tem filiais. Ele acredita que isso pode ser “um novo paradigma que afeta os principais centros metropolitanos do território nacional

”.

Governo defende Volta

A Ministra do Meio Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, já respondeu à polêmica levantada pelo colega social-democrata Carlos Moedas, garantindo que Volta veio para ficar.

Carvalho defendeu o sistema argumentando que Volta, até setembro, “superou a meta estabelecida para o final do ano de 40%” e que em breve o sistema será algo “obrigatório do ponto de vista europeu”.

Para isso, Nuno Jardim argumenta que os sistemas não precisam ser os mesmos em todos os lugares, porque “temos variações culturais, temos diferenças econômicas e, caramba, temos 20% da população que é pobre”.

Nuno Jardim discorda do “cancelamento imediato” do sistema, conforme defendido pelo prefeito de Lisboa, mas argumenta que o sistema exige uma revisão: “Talvez o procedimento deva ser alterado, porque os níveis de pobreza e desespero de algumas pessoas são tão altos que as vulnerabilidades que elas possam ter podem levar a essas situações”.

Desregulação social

Para a CASA, não há nada de errado em um morador de rua poder ganhar um pouco mais de dinheiro para comprar a comida de que precisa; o problema é a “desregulação social” acontecendo, em que pessoas que poderiam ter tido a oportunidade de sair de sua situação são incentivadas a permanecer nas circunstâncias atuais.

O modelo de apoio aos sem-abrigo tende a ser baseado principalmente no trabalho, explica Nuno Jardim, pois é através do trabalho que a oportunidade de gerar habitação e dar outros saltos em frente geralmente ocorre.